Evgueny Zamiatin

Avtobiografii, In Izbrannie proizvedenie v dvukh tomakh, tom 1, str.31—38, Izd. Khudojestvennaia Literatura, Moskva, 1990.

Autobiografia, In Obras escolhidas de Zamiatin E. I. em dois volumes, publicadas em 1990 pela editora Literatura Artística, Vol.1, pp. 31-38.

Traduzido do russo por Clarice Lima Averina

Como buracos numa cortina escura fechada — instantes da minha primeira infância.
A sala de jantar, a mesa coberta com oleado e, na mesa, um prato com algo estranho, branco, brilhante e, maravilha, aquela coisa branca desaparece de repente, não se sabe para onde foi. No prato havia um pedaço do universo desconhecido, exterior, de fora do quarto: trouxeram neve no prato para me mostrar, e esta neve incrível ficou-me até hoje na memória.

Na mesma sala de jantar. Alguém tem-me ao colo diante da janela e lá fora, entre as árvores a esfera vermelha do sol escurece, eu sinto que é o fim e o mais terrível de tudo é que minha mãe ainda não voltou de algum lugar. Depois eu soube que esse alguém era a minha avó e que neste segundo eu estive à beira da morte — tinha então um ano e meio.

Mais tarde, tinha dois ou três anos. Pela primeira vez eu via muitas pessoas, uma multidão. Foi em Zadonsk: meu pai e minha mãe foram lá de carroça e levaram-me. A igreja, a fumaça azul, cânticos, luzes, um epilético a latir como um cão, um nó na garganta. Eis que tudo terminou, empurrões, sou levado pela multidão para fora e fico só na multidão: meu pai e minha mãe não estão lá e nunca mais estarão, estou só para sempre. Sento-me num túmulo qualquer ao sol e choro amargamente. Vivi uma hora só no mundo.

Em Voronej. O rio, uma banheira incomum, estranha para mim e dentro dela (depois lembrar-me-ia disto quando vi ursos brancos em lagos) banha-se um enorme corpo feminino rosado e volumoso — é a tia de minha mãe. Fico curioso e com um pouco de medo: pela primeira vez entendo o que é uma mulher.

Espero à janela, olho a rua vazia, com galinhas mergulhadas na poeira. E finalmente chega nosso tarantás (3), que traz meu pai do ginásio, ele está em cima de um assento grotescamente alto, com a bengala entre os joelhos. Espero o almoço com o coração apertado, mesa abro solenemente o jornal e leio em voz alta as enormes letras "O Filho da Pátria". Eu já conheço esta coisa misteriosa — as letras. Tenho uns quatro anos.

Verão. Cheiro de remédios. De repente minha mãe e minha tia fecham apressadamente a janela, trancam a porta da varanda e com o nariz colado ao vidro vejo: vão levá-los. Um cocheiro com bata branca, a carroça coberta com pano branco, e debaixo do pano pessoas encolhidas a mover pernas e braços: doentes de cólera. O isolamento dos doentes de cólera era na nossa rua, ao lado de nossa casa. Meu coração palpita. Eu sei o que é a morte. Tenho cinco, seis anos.

E, finalmente, uma manhã de agosto suave diáfana. O bater distante e transparente dos sinos do mosteiro. Passo ao lado do jardinzinho diante de nossa casa e sem olhar eu sei: a janela está aberta e olham para mim — minha mãe, avó e irmã. Porque eu, pela primeira vez, vesti calças compridas — "para sair" — e um blusão do uniforme do ginásio, levo uma mochila às costas, vou pela primeira vez ao ginásio. Ao meu encontro o aguadeiro Izmachka agita-se em cima de seu barril e várias vezes olha para mim. Estou orgulhoso. Sou grande. Tenho mais de 8 anos.

Tudo isto entre os campos de Tambov, em Lebedian uma cidade famosa por seus trapaceiros, ciganos, feiras de cavalos, e sua linguagem solidamente russa, sobre a qual escreveram Tolstoy e Turguenev. De 1884 a 1894.

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Adiante o ginásio, cinzento como o pano do uniforme. De vez em quando sobre o cinza uma maravilhosa bandeira vermelha. A bandeira vermelha era colocada na torre de vigilância dos bombeiros e então não significava absolutamente a revolução social e sim o frio de 20 graus negativos. Aliás, esta era a revolução de um dia na vida entediante e programada do ginásio.

A lanterna céptica de Diógenes aos doze anos. A "lanterna" (1) foi acesa por um grandalhão da segunda série e — azul, roxa, vermelha — ficou acesa debaixo de meu olho esquerdo por duas semanas inteiras. Eu rezei para que a "lanterna" se apagasse. O milagre não ocorreu. Comecei a refletir.

Muita solidão, muitos livros, Dostoévisky desde cedo. Até hoje lembro do tremor e faces afogueadas por causa de "Nietotchka Niezvanova". Dostoevsky permaneceria por muito tempo como o mais respeitável e até mesmo temível. Gogol era um amigo (muito mais tarde Anatole France passou a sê-lo também).

A partir de 1986 — o ginásio em Voronej. Minha especialidade, que todos conheciam, era redação em russo. A especialidade, que ninguém conhecia, todas as experiências possíveis sobre mim próprio — para me "temperar".

Lembro-me que na sétima série, na primavera, fui mordido por um cão raivoso. Peguei um manual de medicina qualquer e li que o período comum antes do aparecimento dos sintomas da raiva era de duas semanas. E decidi esperar esse prazo, para ver se tinha ou não pegado raiva — para testar o destino e a mim próprio. Durante essas duas semanas escrevi um diário (o único na vida). Duas semanas depois, não ficara raivoso e comuniquei o fato à direção, que me enviou imediatamente a Moscou para tomar a vacina de Pasteur. Minha experiência terminou bem. Mais tarde, uns dez anos depois, durante as noites brancas de Peterburgo, quando fiquei louco de amor — fiz a experiência com mais seriedade, mas não com mais inteligência.

Deixei o pano cinza do ginásio em 1902. A medalha de ouro foi empenhada por 25 rublos numa casa de penhores em Peterburgo e lá ficou.

Lembro-me do último dia no gabinete do inspetor ("da égua" segundo a hierarquia do ginásio) os óculos na testa, puxando as calças para cima (suas calças viviam caindo) estendeu-me uma brochura. Li a dedicatória: "À minha alma mater da qual só tenho más recordações. P. E. Shegoliev". E o inspetor sentencioso, fanhoso, acentuando a letra "o" (2): "Isso é bom? Também terminou o ginásio com medalha e o que escreve? Está na prisão? Meu conselho: não escreva, não siga este caminho". A lição não ajudou.

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Peterburgo, início dos anos 1900 — Peterburgo de Komissarjevskaia, Leonid
Andreev, Witte, Plevé, trotadores cobertos de rede azul, bondes, puxados a cavalo, estudantes de uniforme e espada e estudantes com paletó azuis de botões do lado. Eu estudava na escola Politécnica, era um daqueles de paletó com botões do lado.

Num domingo branco de inverno na avenida Nevski — multidões escuras e lentas esperavam alguma coisa. A torre da Duma rege a multidão, que não tira os olhos do regente. E quando foi dado o sinal — uma explosão à uma da tarde, na avenida de todos os lados manchas humanas, farrapos da Marselhesa, bandeiras vermelhas, cossacos, garis, policiais. A primeira, para mim, manifestação de 1903. E quanto mais se aproxima 1905 mais febril é o movimento, as reuniões mais ruidosas. 

No verão, estágio nas fábricas, a Rússia, os vagões fanfarrões e alegres de terceira classe. Sevastopol, Nijni, as fábricas da região do Kama, Odessa, porto, os maltrapilhos.

Verão de 1905, especialmente azul, multicolor, cheio de gente e de acontecimentos. Eu fazia um estágio no navio "Rossia", que ia de Odessa a Alexandria. Constantinopla, mesquitas, derviches, bazares, o cais de mármore branco de Esmirna, beduínos de Beirute, a ressaca branca de Jaffa, Athos verde-negro, o pestilento Port Said, a África amarela e branca, Alexandria, com policiais ingleses, vendedores de crocodilos empalhados, o famoso Tartuch. Singular, isolada de tudo, a incrível Jerusalém, onde passei uma semana na casa de um árabe conhecido.

Ao retornar a Odessa — a epopéia do motim no "Potemkin". Com o maquinista do "Rossia", empurrado, pisado, embriagado pela multidão, vaguei no porto todo o dia e a noite inteira, no meio dos disparos, incêndios e pogroms.

Naqueles anos ser bolchevique significava seguir a linha da resistência maior, e eu era então bolchevique. Era o outono de 1905, greves, a avenida Nevski cheia de gente, varrida pelo projetor do almirantado, em 17 de outubro, comícios em estabelecimentos de ensino superior.

Certa vez em dezembro à noite veio ao meu quarto na travessa Loman um amigo operário, com orelhas de abano, Nicolai V., com um saco de papel daqueles de pãezinhos da Casa Filipov, no saquinho havia piroxilina. "Deixo com você este saquinho porque os policiais estão atrás de mim" — "Pode deixar". Até agora vejo o saco no parapeito da janela, ao lado de um pacote de açúcar e de salame. 

No dia seguinte, no quartel do bairro de Viborg no momento em que na mesa estavam planos, parabelluns, mausers, a polícia, — éramos trinta apanhados na ratoeira —, em meu quarto, à esquerda, no parapeito da janela estava o saquinho de pães da Casa Filipov e panfletos debaixo da cama.

Quando, revistados e espancados, fomos divididos em grupos, eu, junto com outros quatro — fiquei ao lado da janela. Vi na rua, junto ao poste, caras conhecidas, aproveitei um momento para lançar um bilhete pedindo que retirassem do meu quarto e dos outros quatro tudo o que não devia estar lá. Isto foi feito. Mas eu só soube disto mais tarde, então, durante vários meses, na cela da Chpalernaia sonhei só com o saco de pãezinhos da Casa Filipov no parapeito da janela à esquerda.

Na cela apaixonei-me, estudei taquigrafia, inglês e escrevi versos (isto é inevitável). Na primavera de 1906 fui libertado e mandado para minha terra natal.

Não suportei por muito tempo o silêncio, os sinos e os jardinzinhos de Lebedian. No verão, sem autorização fui a Peterburgo, depois a Helsingfors. Um quarto, que dava para a Erdoholmsgatan, e sob a minha janela o mar, os rochedos. À noite, quando mal se viam os rostos, realizavam-se comícios no granito cinza. De madrugada não se viam os rostos, a pedra negra e quente parecia branda — porque ela estava ao lado e os raios dos projetores de Sveaborg eram suaves.

Certa vez, nos banhos, um camarada nu apresentou-me um homenzinho nu, um pouco barrigudo: o homenzinho barrigudo era Kok, o famoso capitão da guarda vermelha. Alguns dias depois a guarda vermelha estava em armas, mal se viam ainda no horizonte os contornos da esquadra de Kronstadt, os esguichos das bombas de doze polegadas que explodiam na água, o rimbombar cada vez mais fraco dos canhões de Sveaborg. E eu disfarçado, escanhoado, com pince-nez, retorno a Peterburgo.

O parlamento no Estado. Pequenos estados dentro do estado — estabelecimentos de ensino superior com seus parlamentos. Conselhos de starostas. A luta dos partidos, propaganda eleitoral, cartazes, panfletos, discursos, urnas. Eu era membro — temporariamente presidente — do conselho de starostas.

Fui intimado a comparecer à delegacia. Na delegacia um papel verde procura-se "o estudante universitário Evgueni Ivanov Zamiatin" para ser banido de Peterburgo. Declaro honestamente que nunca estive na universidade, e que no papel há com certeza um equívoco. Lembro-me do nariz do comissário de polícia — um gancho, um ponto de interrogação: "Hum...Temos de investigar". Enquanto isto eu mudei para outro bairro: lá, seis meses depois, uma nova intimação, o papel verde, "estudante universitário", ponto de interrogação e informações. E assim durante 5 anos, até 1911, quando finalmente o erro no papel verde foi corrigido e expulsaram-me de Peterburgo.

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Em 1908 terminei a faculdade de construção naval do Intituto Politécnico e fui nomeado para a cadeira de arquitetura naval ( a partir de 1911 fui professor dessa disciplina. Juntamente com o projeto de um navio com torre blindada, estavam na minha mesa as páginas de meu primeiro conto, que enviei à revista "Obrazovanie", que era redigida por Ostrogorski. A secção de letras era coordenada por Artsibachev. No outono de 1908 o conto foi publicado. Quando me encontro agora com pessoas que leram esse conto, sinto-me tão embaraçado como quando encontro uma das minhas tias, cujo vestido molhei publicamente, quando tinha dois anos de idade.

Nos três anos seguintes — navios, arquitetura naval, régua de logaritmos, esboços, construções, artigos especiais nas revistas "Teplokhod" "Russkoe Sudovodstvo", "Isvestia Politekhnitcheskogo Instituta". Muitas viagens de trabalho por toda a Rússia: o Volga até Tsaritsin, Astrakhan, Kama, região de Donetsk, Mar Cáspio, Arkhanguelsk, Murman, Cáucaso e Criméia.

Nestes anos, entre esboços e número — alguns contos, que não dei para imprimir, em cada um deles eu sentia que havia ali algo que não correspondia. Encontrei o que faltava em 1911. Neste ano as noites brancas foram incríveis, havia muito branco e muito escuro. Nesse ano tive o exílio, uma doença grave e meus nervos cederam, Inicialmente vivi numa casa de campo vazia em Sestroretsk, depois, no inverno, vivi em Lakhta. Ali — a neve, solidão, silêncio — escrevi "Provinciana", aproximei-me do grupo "Zaveti" de Remizov, Prichvin, Ivanov-Razumnik.

Em 1913, tricentenário da dinastia Romanov, obtive o direito de viver em Peterburgo. Agora eram os médicos que me mandavam embora de Peterburgo. Fui para Nicolaev, construí lá algumas escavadoras, escrevi alguns contos e a novela "Nos cafundós do Judas". A revista Zaveti que a publicou foi censurada e apreendida, a redação e o autor foram chamados à responsabilidade penal. Julgaram pouco antes da revolução de fevereiro e absolveram.

O inverno de 1915-1916 novamente tempestuoso e febril terminou com desafio para um duelo em janeiro e em março partida para a Inglaterra.

Até então no Ocidente estivera apenas na Alemanha, Berlim pareceu-me condensada — 80% de Peterburgo. Na Inglaterra foi diferente: tão novo e tão estranho como em outros tempos em Alexandria , em Jerusalém.

Ali inicialmente o ferro, máquinas, esboços: construí quebra-gelos em Glasgow, New Castle, Senderland, Sowsheeds (aliás um dos maiores quebra-gelos é o "Lênin"). Os alemães lançam bombas de zeppelins e aeroplanos. Eu escrevi Os Ilhéus.

Quando nos jornais apareceram em letras grandes Revolution in Rússia, Abdication of Russian Tzar, não agüentei mais ficar na Inglaterra e em setembro de 1917, a bordo de um velho naviozinho inglês (se os alemães o afundassem, não se perdia muito), eu voltei para a Rússia. Navegamos durante muito tempo até Bergen, umas cinqüenta horas, com as luzes apagadas, com coletes salva-vidas e chalupas prontas.

Inverno alegre e terrível de 1917—1918, quando tudo se moveu, se perdeu no desconhecido. Navios, casas, fuzilamentos, buscas, plantões noturnos, comitês de bairro. Mais tarde, ruas sem bonde, longas filas de pessoas com sacos, dezenas de verstas por dia, burjuikas (4) arenques, aveia moída em moinho de café. E ao lado da aveia mirabolantes planos de publicar todos os clássicos de todos os tempos e todos os povos, unir todos os representantes de todas as artes, apresentar no teatro toda a história de todo o mundo. Não havia tempo para desenhos técnicos, a técnica prática secou e caiu de mim como uma folha amarela (da técnica restou apenas o ensino no Instituto Politécnico). Simultaneamente , um curso de literatura russa contemporânea no Instituto de Pedagogia Guertsen (1920-1921) um curso de técnica de prosa artística no Estúdio da Casa de Artes, trabalhava no conselho de redação da "Literatura Universal", na direção da União Russa de Escritores, no Comitê da Casa dos Literatos, no Conselho da Casa de Artes, na Secção dos filmes históricos PTO, na editora de Grjebin, "Alkonost", "Petrópolis", "Misl", na redação das revistas "Casa das Artes", "O Ocidente Moderno", "O contemporâneo russo". Durante estes anos escrevi relativamente pouco. Entre as coisas mais importantes o romance"Nós, publicado em inglês em 1925, depois em tradução para outras línguas, este romance ainda não foi publicado em russo.

Em 1925 traição à literatura: teatro, as peças A Pulga e a Sociedade dos tocadores de carrilhão honorários. A Pulga foi apresentada pela primeira vez no palco do Teatro Acadêmico Artístico de Moscou em 2 de fevereiro de 1925, a Sociedade dos tocadores de carrilhão honorários em novembro de 1925 no Grande Teatro Mikhailovski em Leningrado. A nova peça — a tragédiaÁtila foi concluída em 1928. Em Átila cheguei aos versos. Impossível ir mais além, volto ao romance e contos. 

Penso que se em 1917 não tivesse voltado da Inglaterra, se não tivesse vivido todos estes anos junto com a Rússia não poderia mais escrever. Vi muita coisa: em Peterburgo, em Moscou, na periferia em Tambov, nas aldeias perto de Vólogda, Pskov, em vagões de carga.

Assim se fechou o círculo. Ainda não sei, não vejo quais serão doravante as curvas de minha vida.

(1) N.T. A palavra "lanterna" na gíria significa "olho roxo"
(2) N.T. Em russo a letra "o" não acentuada é lida quase que como um "a" em muitas regiões.
(3) N.T. Tarantás é uma espécie de carruagem coberta, com quatro rodas.
(4) N.T. Uma espécie de aquecedor de ambiente, constituído de um barril metálico com uma chaminé, dentro do qual acendiam fogo.

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