Boris Koval

O Instituto da América Latina da Academia de Ciências da Rússia (ACR) publica este novo livro de Boris Iossifovitch Koval para assinalar o 50o aniversário de seu trabalho científico.

B. I. Koval é um cientista conhecido. Doutor em Ciências Históricas, professor, personalidade emérita da ciência da Federação Russa. Ele foi eleito membro efetivo da Academia de Ciências Naturais da Federação Russa, acadêmico da Academia Internacional de Cultura Portuguesa. Há dez anos B. I. Koval dirige o Conselho Científico da ACR, de pesquisa dos processos civilizadores contemporâneos, leciona, é redator responsável do almanaque filosófico-publicista Litchnost i mir e vice-presidente da Internacional Humanista.

Escreveu uma série de trabalhos fundamentais e de divulgação científica sobre amplo círculo de questões históricas e politológicas. A grande contribuição de B. I. Koval ao desenvolvimento do latinoamericanismo nacional está relacionada com o estudo dos problemas da história contemporânea do Brasil e outros países do continente sul-americano. Nos últimos anos ele pesquisou problemas teóricos e filosóficos gerais, relacionados com o processo civilizador. Uma série de livros de B. I. Koval foi publicada em espanhol e português.

Uma parte considerável do trabalho neste livro, que apresentamos ao leitor, foi feita há trinta anos. Mas ele está sendo publicado só agora, tendo sido substancialmente revisto. Há motivos diversos para isso. Antes algumas considerações e conclusões do autor pareceriam facciosas. Hoje elas podem ser expressas livremente, sem recorrer a "linguagem de Esopo", nem temer "análises partidárias". Além disso, o que é muito importante, já em 1960 B. I. Koval conseguiu trabalhar com alguns documentos secretos do Comitê Executivo da Internacional Comunista, que eram guardados debaixo de sete chaves no Arquivo Central do Partido junto ao CC do PCUS. Era proibido usar estes materiais na imprensa aberta. É verdade que, no entanto, sem citar fontes, ele incluiu alguns dados sigilosos no livro História do proletariado brasileiro (1857-1967), publicado em 1968. Agora, finalmente, foram retiradas as proibições para a publicação desses documentos. Mas, o principal consiste em que, em três decênios, mudou radicalmente toda a situação política e ideológica na Rússia. Mudou também o ponto de vista do autor a respeito de muitos acontecimentos históricos. Sua nova concepção distingue-se pela coragem de apreciações e às vezes generalizações criativas inesperadas.

O novo livro de B. I. Koval é dedicado a Luiz Carlos Prestes - conhecido político brasileiro do século XX. Mas em essência o livro conta como pode ser complexo e diferente o entrelaçamento do heróico e trágico na história política mundial e na vida de uma pessoa.

A particularidade do enfoque do autor à solução desta questão consiste em que a conjugação dos aspectos heróico e trágico é encarada do ponto de vista humanista e existencial. É perfeitamente justificado este enfoque. Realmente, é pouco provável que se possa compreender o espírito da época, se esquecermos do próprio homem, de seus valores, vivências, buscas do sentido e objetivos na vida. Por isso o autor se interessa, antes de mais nada, pela "dimensão humana", avaliações e preocupações do herói, de seu relato, a evolução dos pontos de vista e sentimentos. A história da vida de Luiz Carlos Prestes torna-se a "janela" através da qual se vê toda a história política do Brasil do século XX.

De modo surpreendente muita coisa nela é consonante com a experiência russa. Revoluções e guerras civis, fome e miséria, totalitarismo e violência, reformas democráticas e populismo - tudo isto e muito mais gera o desejo de comparar e traçar paralelos. O principal tema do livro - o entrelaçamento do heróico e trágico é próximo de quase todos compatriotas. Acaso ele não se revelou no destino das gerações de nossos pais e avós? Justamente por suas vidas passou com roda sangrenta a história do século XX. Eles sofreram muito. Eles não sabiam viver para si próprios, pois serviam a uma idéia, ao ideal em que acreditaram até o fim.

Mas não apenas por isso o protagonista do livro é próximo da Rússia. Sua vida esteve ligada a Moscou no sentido mais direto: ele viveu aqui 12 anos.

B. I. Koval revive a tradição clássica do gênero histórico-biográfico, o que lhe permite, de um lado, superar muitos dogmas e mitos antigos, e de outro - unir com êxito a rígida veracidade científica com o relato sincero, livre e emocional.

Foi muito bem sucedida a combinação orgânica da análise severa dos documentos com as lembranças de encontros e palestras com Luiz Carlos Prestes, com outros políticos brasileiros e latino-americanos. Isto dá ao relato um caráter vivo. B. I. Koval procura não se afastar dos acontecimentos históricos, mas, ao contrário, aproximar-se deles, sentir seu espírito vivo, e consegue fazê-lo. Ele recria a história real, mostra não apenas seu lado claro, mas também o escuro, denuncia a mentira da concepção stalinista da "revolução comunista mundial", revela o verdadeiro sentido da estratégia do Komintern em relação ao Brasil e toda a América Latina.

A história do século XX foi assinalada pela concepção de força na busca de "novos sentidos" da vida. Para uns, este sentido identificava-se com a luta pelo socialismo e revolução mundial - para outros, com o fascismo e sua "nova ordem mundial" - para terceiros, com a democracia liberal. Os elementos da torrente política jogavam as pessoas de um lado para o outro. Somente as pessoas fortes e voluntariosas eram capazes de conservar sua identidade, mas também elas caíam muitas vezes no anzol de iscas ideológicas envenenadas. O fetichismo das idéias vencia qualquer individualidade.

Sem fazer uma análise detalhada do livro, eu gostaria de destacar uma série de novas concepções mais significativas da histórica política geral do Brasil. Entre as quais estão:

  • Reavaliação do significado histórico da revolução "liberal" de 1930 - de negativo para positivo: disto decorre a conclusão sobre o grande erro de cálculo estratégico de Luiz Carlos Prestes e do PCB, que se pronunciaram contra a união com o grupo liberal nacionalista de Getúlio Vargas;
  • A análise da estratégia sectária de esquerda da luta direta pelo poder "operário-camponês" no decurso dos anos 30 e decênios posteriores;
  • Revelação da linha viciosa do Komintern para o estímulo artificial de manifestações revolucionárias armadas no Brasil e outros países da América Latina;
  • Revelação das conseqüências trágicas da revolta de novembro de 1935;
  • Revelação dos traços e particularidades do populismo burguês-nacionalista e do Estado Novo de Getúlio Vargas;
  • Análise das contradições e realizações do movimento democrático no período pós-guerra;
  • Exame da tática de guerrilha urbana sob a direção de Carlos Marighella;
  • Análise escrupulosa da evolução política de Luiz Carlos Prestes e do tenentismo em diferentes etapas da história;
  • Mudança da base conceitual do movimento de libertação no Brasil do século XX no contexto da experiência revolucionária mundial.

Estes e outros problemas são tratados no livro de forma multilateral e convincente. Não se pode concordar totalmente com todas as considerações e conclusões. Algumas despertam dúvidas. E isto é perfeitamente natural.

Na minha opinião, nem tudo ficou esclarecido em relação ao problema do populismo e nacionalismo. São fatores mutuamente ligados, mas cada um deles tem sua lógica e seu lugar na vida. Tanto o populismo como o nacionalismo são fenômenos complexos e dúplices. Eles contêm momentos positivos e negativos ao mesmo tempo. Sendo que sua composição pode mudar em diferentes situações. Deveria ter sido dada atenção especial a isto.

A figura do próprio Prestes é apresentada pelo autor sem qualquer idealização, mas também sem crítica. As avaliações que B. I. Koval lhe dá são ponderadas e refletidas. E, no entanto, às vezes, soa uma nota de romantização do herói. Isto é perfeitamente natural e até mesmo inevitável, por que B. I. Koval relata sobre um amigo, uma pessoa próxima dele. Outro pesquisador escreverá sobre Prestes de modo diferente. O livro de B. I. Koval é ímpar em seu gênero. Mérito importante do livro é a liberdade e espontaneidade do pensamento do autor, bom estilo literário, apoio em rico material documental e ampla historiografia. Impressiona, sobretudo a honestidade do autor na avaliação de seus trabalhos anteriores sobre a história do Brasil. Ele é capaz de rever substancialmente suas próprias conclusões antigas e formular nova interpretação histórica. Agora, também para nós, leitores, surgem de modo diferente muitos acontecimentos e fatos conhecidos. O ponto de vista do autor é fundamentado e desperta compreensão e interesse.

Concluindo, o novo livro de B. I. Koval, na minha opinião, ocupará um lugar digno entre os estudos históricos de problemas da América Latina em geral e do Brasil, em particular. Lê-se o livro com facilidade e interesse. Estou certo de que cada um encontrará nele muita coisa útil e edificante. Em todo caso, nossa idéia geral do Brasil e sua história política no século XX, do papel e significado de Luiz Carlos Prestes nessa história, do destino das gerações do século XX, será enriquecida consideravelmente e adquirirá colorido vivo e emocional. Pelo que se pode apenas agradecer ao autor e desejar-lhe novos êxitos em seu trabalho.

V. M. Davidov
Diretor do Instituto da América Latina da Academia de Ciências da Rússia, doutor em ciências econômicas e professor

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